16 Março 2010
O dom de elevar
Desafiada para criar uma peça ligada à população do território coberto pela Artemrede - a região de Lisboa e Vale do Tejo -, Madalena Victorino revelou novamente a forma ímpar como observa e se inspira numa comunidade, para produzir com ela um trabalho artístico singular.
Vale é uma obra com forte expressão dramatúrgica, que absorve marcas de uma cultura e as reproduz, ilustrando, reflectindo e criticando com subtileza moralidades e comportamentos da tradição. São representadas a lide a cavalo e a pega da tourada, evocando uma relação ambígua de poder e fragilidade, de amor e morte entre os animais e o ser humano, que remete à questão do domínio do macho e fascínio por ele. Isto é legível quando três homens se exibem competitivamente com movimentos rígidos dos braços e são admirados por um grupo animado de mulheres e meninas que trazem rendas sobre a cabeça. Há duetos que interpretam a relação homem-mulher, marcados pela possessão e manipulação dele e a doçura maternal ou jovial dela. Embora só em algumas cenas os participantes locais completem o elenco fixo, essa junção é muito eficaz e transpira a identidade de um povo.
Na peça encadeiam-se a bom ritmo secções distintas que transmitem grande força coreográfica. Esta manifesta-se quando actua uma massa bem organizada, vigorosa e emocionante de muitas pessoas, mas também nos trechos preconizados pelos sete intérpretes profissionais, em grupo ou com formações mais pequenas. O movimento e as relações de confronto e harmonia entre os corpos transformam referências do contexto em causa. Da fusão de gestos e expressões com grand jetés, retirés e battements (ou outros passos codificados na dança), surgem sequências intensas e originais. Mas também se adoptam literalmente formas espaciais feitas pelo correr em círculo, construir um túnel e erguer de fileiras.
A esta transposição quase imediata da realidade para o palco sobrepõem-se várias soluções inteligentes de projecção de imagens vídeo de animais e pessoas sobre a cena, que acrescem tensão - como o touro preto colocado dentro do corpo - ou provocam deslumbramento - como o carrossel de cavalos a correr nas peles de vaca estendidas a rodar.
Da oscilação dinâmica entre movimentos de corpos e imagens, luz quente e um colorido de figurinos, resulta uma grande força visual que se expande com o trabalho musical. Carlos Bica assimilou influências populares e criou uma partitura que dá qualidades essenciais à intenção dramatúrgica, como adrenalina, nostalgia ou celebração. Elevados ao fundo da cena, os músicos recuperam a situação de concerto no baile, podendo tocar para o público, mas também pertencer a tudo o resto.
Victorino é mestre em casar as experiências da vida e da arte e Vale é um exemplo pleno de beleza e energia. É também admirável por conseguir gerar empatias e sensibilizar espectadores para a dança enquanto arte contemporânea e teatral e ainda pela forma como, em três dias de ensaios, integra uma população diferente em cada localidade. A peça circula até ao fim de Março por Alcobaça, Almada e Palmela.
Paula Varanda, in Público, 13 Março 2010
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